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Um governo de Vesgos

O que é que está a ver um vesgo que tem um olho a«olhar» para a direita e o outro a «olhar» para a esquerda? Vê o que está à direita ou o que está do outro lado? Claro que estou a partir do princípio quenão deve ser possível ver os dois lados ao mesmo tempo, caso em que os vesgos seriam já conhecidos por essa capacidade extraordinária e seriam muito mais utilizados em cargos onde isso seria mais útil ao país – a política, por exemplo.
Poderíamos imaginarumdebate no Parlamento comumorador a acusar um lado da bancada mas a olhar para o lado oposto. Haveria uma certa confusão ao princípio, mas depois a clarividência de uma pessoa que vê os dois lados ao mesmo tempo conquistaria a adesão não só dos correligionários, claro, mas também dos opositores.
Atenção: eu percebi entretanto que esta ideia é ficção e que não há ninguém neste Governo que tenha esta capacidade. Se houve, foi despedido antes de tomar posse. Éque eu cheguei à conclusão que há algo de vesgo neste Governo. Porque, se formos a ver, não tem acertado em nenhuma das metas mais importantes que impôs a si próprio. Reforma na justiça (fundamental para haver democracia, economia séria, etc...): cortou as férias aos juízes (que já não as gozavam) mas não lhes deu meios nem melhorou a legislação.
Reforma na saúde: começou por fechar serviços antes de arranjar alternativas melhores; gastou milhares em aparelhos para os médicos «picarem o ponto», mas torna mais atractivo eles saírem para o privado.
No ambiente ainda não tomou umamedidaque seja para obrigar as casas que estão a ser construídas a terem painéis solares. Isto serviria paraopaíspoupargás e electricidade para aquecimento e, portanto, poupar divisas e – é bom lembrar – não gastar nem agora nem no futuro as quotas de emissões de carbono que vamos todos ter de pagar. Já se sabe há anos que com um aumento de cinco por cento no preço da construção, as casas ficamcomumaqualidade que vai originar poupanças energéticas que pagam esse acréscimo em muito pouco tempo… E era só escrever uma lei…
Na educação, as reformas que foram feitas apontam, asmais visíveis, para o nivelamento por baixo do ensino ministrado. O ensino já não é obrigatório até ao 9.º ano: é obrigatório passar toda a gente até terem o 9.º ano - o que é muito diferente!
E já se fala em alargar a bandalheira obrigatória até ao 12.º ano! As«novas oportunidades» são uma vigarice completa, onde, ao lado de alunos que estão a ter a última oportunidade de terumaprofissão, estão tipos a chular o sistemaeaenganarospaiseopaís.
Esta é a avaliação que podemos fazer do trabalho da ministra.
E já nem falo da avaliação de professores – onde aministra fez uma entrada à patada numa questão que é tão delicada como fundamental.
Isto é: para mim este Governo de vesgos preferiu tomar medidas considerando que toda a gente é preguiçosa e mal formada, em vez de olhar para o estado miserável em que nos puseram anos de medidas tomadas por gente que não vê nada para nenhum dos lados. Oquemeincomoda é olhar para todos os lados e não ver saída…

in Sexta por José Pedro Gomes

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